quinta-feira, 24 de março de 2011

ao pablito: regra excessiva

a arte moderna é angustiante?
o homem moderno é angustiado?
alguém nos paga para sofrer?
somos românticos e católicos?
onde poderia simplesmente sorrir?
felicidade é a solução?
cresço quando choro?
que tamanho tenho agora?

Não busquei justificativas
Ouço passos

Nem o encanto
Sigo pássaros

Nem a animalidade
Sinto o vento

Nem a fraqueza
Imagino amor

Desculpas e arrependimento
Ceifariam a magia

faca de ponta



Carruagem, carruagem
O vento sobe a ladeira de barro
As árvores empretecem a noite
E nada muda
Os cavalos vêem melhor

Nas orações pela chuva boa
Esqueceram de citar a garoa da manhã criança
Hora dos cavalos quentes fumaçarem
Pelo pêlo e pelo bafo aflito
Seus e de seus guias

É lua nova, Sinhô?
É cheia, são as rodas cortando as gargantas de areia
Um sussurro não se ouve
Se espera um grito:
Liberdade negra, liberdade

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

DESABAFO

A cada dia me surpreendo com a falta de escrúpulo da direção da Universidade Católica do Salvador – UCSal. O mais novo “apronte” foi a elaboração do Ato nº 539/2010 UCSal pelo Reitor da instituição, Sr. JOSÉ CARLOS ALMEIDA DA SILVA, com vigor a partir da sua publicação, ocorrida em 30 de novembro de 2010.

Tal resolução estabelece diretrizes para a realização das Atividades Complementares nos Cursos de Licenciatura e Bacharelado da Universidade Católica do Salvador, onde, de maneira unilateral, arbitrária e aristocrática, impuseram condições para a realização das atividades complementares, bem como, o computo das cargas horárias, condições estas que podemos classificar como, no mínimo, ESDRÚXULAS E ABUSIVAS.

Ocorre que, é exigida dos alunos de Bacharelado e Licenciatura a participação em Atividades Complementares, totalizando 210 horas, para integração curricular e conseqüente formação acadêmica.

Destarte, após o supra referido Ato, o Reitor decidiu excluir das Atividades Complementares o Estágio Não Obrigatório; o Trabalho Efetivo Discente – TED e a participação em congressos e seminários não promovidos pela Universidade, atividades estas que geravam o maior acumulo de horas para integração curricular da maioria absoluta do alunado.

Assim, apenas serão consideradas como Atividades Complementares para integração curricular: as atividades acadêmicas realizadas pelos alunos através de MATRÍCULA ($$$$$) em disciplinas de outro curso; em disciplinas do seu curso ($$$$$) (desde que tenham sido excluídas dos projetos pedagógicos por força de reforma curriculares); em disciplinas do novo currículo do seu curso de graduação ($$$$$) (desde que não integrem os currículos aos quais os estudantes estejam vinculados); a participação em congressos, seminários, conferências, semanas de mobilização científica, encontros de avaliação e planejamento pedagógico, mini-cursos, dentre outras atividades promovidas pela própria Universidade ($$$$$); atividades de monitoria e iniciação científica (desde que realizadas de forma VOLUNTÁRIA) e atividades acadêmicas realizadas com aproveitamento pelos alunos, exclusivamente em cursos de graduação autorizados e reconhecidos pelo Ministério da Educação (desde que estejam registradas nos históricos escolares como Atividades Complementares).

Então, pelo que entendi, se um aluno do curso de Direito pegar uma matéria do curso de Música, esta matéria será considerada uma Atividade Complementar e os estágios desenvolvidos por aquele aluno, em órgãos do Poder Judiciário, escritórios de advocacia, dentre outros, não serão considerados Atividades Complementares??? Em qual parte dessa piada podemos rir???

Pasmem Nobres Colegas. Isso é um ABSURDO. É nítido que esta é mais uma estratégia da Direção desta Instituição para arrecadar mais dinheiro, obrigando os alunos a cursarem matérias não obrigatórias, integrando-as ao currículo como Atividades Complementares, já que, pelo que me recordo, a única Atividade Complementar desenvolvida por iniciativa da UCSal é o SEMOC, pois, a grande maioria dos seminários, congressos, conferências e etc, são de iniciativa dos alunos formandos (para arrecadar verbas para a formatura) ou de outras instituições.

Tais alterações serão válidas para todos alunos a partir de março/2011, excluindo apenas os formandos de 2011.1, sendo que os outros, em atenção especial aos formandos de 2011.2, que acredito serem os mais prejudicados, deverão se virar em 210 horas de Atividades Complementares numa Instituição que malmente consegue cumprir com o cronograma acadêmico.

Hoje, ao receber e-mails de colegas sobre tal assunto, fui acometido por um sentimento de indignação, e mesmo apesar do cansaço por ter vivenciado inúmeras barbáries desta Instituição ao longo desses 5 anos e que hoje encontram-se apagadas da memória de muitos, reúno forças, mais uma vez, para enfrentar esses inescrupulosos, gananciosos e usurpadores membros da direção da Universidade Católica do Salvador – UCSal.

Aproveito a oportunidade e peço aos Nobres Colegas para que não abaixem as cabeças e aceitem tais imposições, pois nós que construímos essa Instituição, se ela hoje ainda tem algum respaldo, este é mérito nosso, pois mesmo com tantas adversidades fomos capazes de progredir, alcançando respeito perante a sociedade.

Onde estão os líderes dos D.A´s???

Quanto aos Exmo. Membros da Direção da Ucsal, já não bastam todos os desvios de dinheiro? Todas as sonegações de Impostos? Onde estão os R$ 36 milhões desviados dos cofres da UCSal? E as propinas pagas para anularem o débito com a Previdência Social? Sem falar nas falcatruas nas eleições para Reitoria...

TENHO NOJO DE VOCÊS!!

Para os interessados, seguem links para maiores esclarecimentos:

http://www.fenafisp.org/app/modules/news/print.php?storyid=807

https://www.ucsal.br/download/atos_editais/ato_0539_10.pdf

http://www.jornalgrandebahia.com.br/materia/1603/audiencia-publica-discute-crise-da-ucsal-mpf-convoca-reitor



Sem mais para o momento,

Att,

Lucas Santana Santos

Estudante de Direito da UCSal - 11º semestre.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011




declama, declama
ela clama
e reclama

ela quer mandar
andar sobre águas confusas
dar ordens no quartel da estupidez

licença não funcionaria
respeito só há em público
funcionária pública não trabalha na licença

esclamo, esclamo
clamo a minha dor ignorante
que devaste o mundo e lance um tom laranja na noite

eu rio da catástrofe
ela me cela no seu beijo
e a catástrofe do beijo sela o rio que me separa dela


nesta tarde fria de inverno norte
cheia de ventos bandidos
de neve seca
de esquilos trêmulos
e sem pássaros

não me bastou o calor do casaco
do bolso úmido
do cachecol felino
tampouco o carinho da flor eterna
de queixo encaixado em meu ombro
irresponsavelmente apaixonada

em meio a estas pessoas coloridas/pintadas
tão diversas quanto as posições sexuais
e quase sempre caladas
e quase sempre apressadas
e pressionadas pelo tempo dividido
cegas de mim e em mim aprisionadas
recorro a um momento

precisamente
renasço na preta da cozinha
calada, apressada, pressionada, dividida
mas que mirava no fundo da panela quente
como no seio virgem
o sorriso do menino faminto e molhado pelo banho

sinto o fogo por debaixo da frigideira
o calor escapando pela beirada das tampas equilibradas
e aquela dedicação de mãe de cria
cuja mão descansada nos quadris
e olhos permissivos embassados pelo tempo
simbolizavam a hora do almoço
e me faziam encher a boca d'água

meu interior se aquece, ensolara
se faz importante e abafa as grifes, a gripe, a crise
e me refogo no cuidado e força boa da vida
numa memória pequena
superior ao i'm sorry de qualquer chinês

sábado, 1 de janeiro de 2011





pissssssssssss

silêncio, irmão!

4 palavras me encerram:

até onde estou certo?

até onde estou certo?

até onde estou certo?

...

quarta-feira, 28 de julho de 2010





Quanto custa este livro?
Está sujo
Se desfazendo
Cheio de riscos, rabiscos
Até uma declaração de amor...

Mas não pode custar tanto?!
As letras vão sumindo
A Capa não diz nada
Arrancaram-lhe o prelúdio...

Por que eu o quero?!
Sinceramente?!
Em nome da nossa amizade?!
Porque seu maltrato é sinal de beleza
Queria eu envelhecer como ele
Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.


(Hilda Hilst)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

boca-pio




Tártara boca

Rota

Além da curva a força

Solta

Em verbos de carne

Arde

Saber e sede estanque

Tanque

De lava sobre a mesa

Beba

E cada fino extrato

Farto

Da cega flor da noite

Açoite

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


... veloz cidade

À caça a carcaça
Camuflada na fumaça
Fuma seu cigarro
Outro pigarro
Um cuspe escuro

Olhos irritados
Dentes ácidos

Dedos escarnados
Estômago frio

Salve o slave!
Salve o slave!

Tiro dentro da boca
Da boca do fuzil

sábado, 12 de setembro de 2009

Ainda escrevo.
Ainda com frequência.
Não publico, por necessitar de material inédito - totalmente inédito!
Aí embaixo está uma gotinha do que ando fazendo!
Devo confessar: uma das mais pequenas!


Moça das monções
Intérprete das intempéries
Rosa do reisado

Borboleta cujo bater das asas destrambelha as tensões

Mãe das cartas cuja sorte faz do homem um rei

Ave de canto de vôo de plumagem

Arquétipo da fêmea
da orquídea
da manhã

amora... aroma... aurora

despertar e delirar dum querer espontâneo
que intriga os sentimentos brandos
e subverte os restantes

admirar e conceber dos encantos da mulher
sem caprichos ou falsas construções
com divino charme e esplêndida mina

desventura, desenlace, desiderato

união de
olhos vastos e calmos
boca aberta e precipitada
cheiro doce e seco
corpo e cólera
ventos e fala

tu,
a desconhecida perceptível demais
por demais conquistadora
incrivelmente incandescente
indecente, indelével, indecifrável

de irrealizável olvidar
de implexo descrever
de inesgotável sonhar

e o que mais?
já não pretendo imaginar!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O OSTRACISMO DE WILSON SIMONAL


Por Galindoluma


O cantor Wilson Simonal foi muito popular no Brasil na década de 1960, sendo comparado a Roberto Carlos como fenômeno de massas. Pouco antes de morrer em 2000, acuado com a pecha de delator da ditadura militar, falava em recompor seu prestígio acusando a esquerda de perseguição ideológica e dizendo ser vítima de racismo.
Com o documentário — Ninguém Sabe o Duro Que Dei, em cartaz, o debate se o cantor era ou não serviçal dos milicos voltou à cena.
Muitos jornalistas, jornais, revistas aproveitam o documentário para atacar a esquerda, falando em patrulhamento ideológico e que não haveria provas alguma de que a estrela teria vínculos com o regime de exceção.
Paulo Vanzolini, poeta e zoólogo, autor de Ronda e daquele famoso refrão “levanta sacode a poeira e dá a volta por cima” disse que o moço não só era delator, mas tinha orgulho em ser. “Na frente de muitos amigos Simonal dizia que entregou muita gente boa”, diz o letrista, que arremata: “essa recuperação que estão fazendo do Simonal é falsa. Ele era dedo-duro mesmo”.
A Folha de São Paulo nesta semana trouxe uma vasta reportagem sobre o assunto que jogou por terra todos os esforços daqueles que pretendem recuperar a imagem de Simonal e desmoralizar a esquerda como suposta responsável pelo ocaso do intérprete negro.
O problema de Simonal começa quando ele contrata um torturador do Dops para exigir de seu contador, Raphael Viviani, a confissão de desvio de recursos. Ao lado dos agentes da repressão o cantor seqüestra o funcionário em sua residência de onde é levado para as dependências do Dops. Lá, debaixo de choques elétricos, socos e pontapés, o funcionário assumiu o desfalque.
Isso vai gerar depois uma ação judicial cujas páginas, para mim, encerram as dúvidas sobre a controvérsia em diversas passagens. Registre-se que apenas esse episódio já seria o suficiente para se colocar em xeque o caráter do artista.
Em não poucas vezes o cantor vai ser referido no processo citado na reportagem, como “colaborador das autoridades na repressão à subversão”. Selecionei pequenas partes da matéria com alguns poucos trechos do processo para que você analise ao final do texto, mas antes levantaria ainda dois aspectos.
Qual a força que a esquerda tinha naquele período sombrio para encerrar a carreira de um cantor de prestígio? Ora, quase todos os meios de comunicação de massa eram controlados e/ou aliados dos militares (a quem Simonal apoiava) e os movimentos de resistência encontravam-se quase que asfixiados com as prisões, torturas, assassinatos e exílios. No Brasil e no mundo é comum cantores surgirem como fenômenos e desaparecerem do mesmo modo. Na época de Simonal outros também fizeram sucesso e não mantiveram o fôlego, como Vanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Vanderleia e outros. Se o episódio das delações corroía o astro e o deixava magoado e triste, devia ser por um problema de consciência dele, talvez de arrependimento, mas nunca por uma campanha organizada de perseguição contra ele. Arrancar confissões sob tortura não deve provocar boas lembranças a patrocinadores desse tipo de bestialidade humana.
O outro argumento, de racismo, para o ostracismo do apologista do golpe militar é outra balela. Daquele período tivemos também Jair Rodrigues e o próprio Jorge Benjor que mantem suas carreiras até hoje, porém, sem o sucesso da fase inicial. Portanto, aqueles que se emocionaram com o documentário, é bom ter cautela.
Lembrem-se ainda de que para sacudir a poeira e dar a volta por cima não é pra qualquer um, principalmente para quem delatou para o regime militar companheiros e companheiras que poderiam ser torturados e mortos pelos amigos do cantor. Simonal tentou. Não conseguiu.
“Todos esses documentos integram o processo 3.5 40, instaurado em 1972 na 23ª Vara Criminal, concluído em 1976 e em cujas 655 folhas jamais houve divergência: dos amigos mais fiéis ao antagonista mais ressentido, todos estiveram de acordo que Simonal -e ele assentia- era informante do Dops”.
“Às 15h de 24 de agosto de 1971, perto de nove horas antes da diligência contra Viviani, Simonal afirmou ter ido à rua da Relação "visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artístico".
Ou seja, o primeiro a sustentar que Simonal era informante foi ele mesmo, e antes da ação da polícia. Na ocasião, o cantor lembrou que no golpe de Estado de 1964 esteve no Dops "oferecendo seus préstimos ao inspetor José Pereira de Vasconcellos" - outro denunciado por sevícias contra opositores...
Na 13ª DP, o cantor depôs em 28 de agosto. Apresentou-se como "homem de direita" e relembrou ter dito no Dops (no dia 24) que conhecia, "como da área subversiva", "uma irmã do senhor Carlito Maia" - era a produtora cultural Dulce Maia, "O declarante aqui comparece visto a confiança que deposita nos policiais aqui lotados e visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artístico”;
“Como sabe V. Sa., o cantor Wilson Simonal é elemento ligado não só ao Dops, como a outros órgãos de informação, sendo atualmente o elemento de ligação entre o governo, as autoridades e as Forças Armadas com o povo, participando de atos públicos e festividades, fazendo de seu verbo e prosa a comunicação que há tanto tempo faltava." Mário Borges, chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops;
“O primeiro acusado, Wilson Simonal, era informante do Dops e diversas vezes forneceu indicações positivas sobre atividade de elementos subversivos (idem)."Conhece o primeiro acusado [Wilson Simonal] porque após a revolução de 64 o primeiro réu sempre colaborou com as Forças Armadas."Expedito de Souza Pereira, tenente-coronel do Exército;
"Simonal se diz, com todas as letras neste processo, um colaborador dos órgãos de informação, por se tratar de homem de direita. A sua defesa corroborou isso com cifras definitivas [...]. Daquela época ["Revolução de 1964'] ao fato da denúncia se perfizeram 7 anos e meses de atividade policial auxiliar voluntária de Simonal;
"Que Wilson Simonal de Castro era colaborador das Forças Armadas e informante do Dops é fato confirmado [...]."João de Deus Lacerda Menna Barreto, juiz da 23ª Vara Criminal, na sentença do processo 3.540/72;
"O primeiro apelante, Wilson Simonal de Castro, era colaborador das Forças Armadas e informante do Dops [...]."Antônio Carlos Biscaia, promotor de Justiça, em contra-razões de recurso.
“Relatório interno do Departamento de Ordem Política e Social da Guanabara, com carimbo "confidencial", resumiu em 30 de agosto de 1971 a relação com Wilson Simonal: "É elemento ligado não só ao Dops, como a outros órgãos de informação, sendo atualmente o elemento de ligação entre o governo, as autoridades e as Forças Armadas com o povo, participando de atos públicos e festividades, fazendo de seu verbo e prosa a comunicação que há tanto tempo faltava".
”Em agosto de 1982, ainda na ditadura, a Folha circulou com entrevista de Simonal em que ele afirmou: "Dizer que eu dedurei os cantores comunistas é meio calhorda. Eles próprios nunca negaram que eram comunistas. Chico Buarque, Caetano Veloso jamais disseram o inverso. E qualquer criança sabe o que eles são..."
(galindoluma dá palpites)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

a poesia respira minhas idéias
confunde meus sosnhos
aguça amores - outros e meus

não deixarei de ser poeta
nunca
assim nasci

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os traidores de classe

Milton Temer
Sáb, 28 de março de 2009 12:15

Entre os vários episódios pitorescos que marcam a Revolução de Outubro, na Russia de 17, um merece ser recuperado. Trata-se de um fato marcante, ocorrido com Alexandra Kolontai, e que resultou em filme de sucesso na União Soviética, lá pelos anos 70 do século passado.
Kolontai, revolucionária combativa e dirigente competente, todos sabem, era uma mulher de dotes físicos admiráveis. Com o que, e principalmente pelo seu comportamento individual libertário, exercia forte influência sobre seus pares, em um momento em que os embates sobre os caminhos da Revolução eram disputados por uma direção de altíssimo nível, mas onde a maioria era conquistada em cada confronto específico.
Comenta-se que, para evitar problemas com sua camarada de lutas, por quem tinha respeito, mas de quem temia posições sectárias, Lenin preferiu afastá-la do núcleo de comando. Por conta disso, nomeou-a embaixadora na Suécia.
Pois bem, e aí vamos ao grão, em sua primeira entrevista coletiva, ela se vê acossada pela inconveniência de uma pergunta de um jornalista sueco: “Como se explica que eu, filho de um operário, me veja na condição de social-democrata, enquanto a senhora, filha de um general czarista, se transforma em líder bolchevique?”
Kolontai não hesitou, e desmontou o inquisidor com a resposta: “Isto se explica porque somos, ambos, traidores de classe”.
Essa historinha de tempos heróicos, difíceis de imaginar no tempo em que vivemos, me ocorreu por conta da brutalidade das últimas declarações de Luiz Inácio Lula da Silva, em uma de suas incontáveis aparições públicas, onde discursa para criar manchetes de jornal.
Não; não estou me referindo aos vilões de pele branca e olhos azuis. Quem tem que comentar tal deslize com mais propriedade é João Pedro Stédile, que bate na trave da descrição presidencial sobre os responsáveis pela crise gerada com a hegemonia do sistema financeiro privado sobre a economia globalizada. Ou o humanista Leandro Konder, com uma vida dedicada ao combate intelectual sem tréguas ao capitalismo.
Estou me referindo ao absurdo do comício em que Lula conclamou os trabalhadores a, diante da complexa conjuntura atual, abrir mão do direito de reivindicar justa participação salarial na riqueza que produzem. "Hoje, mais do que fazer uma pauta de reivindicação pedindo mais aumento, temos que contribuir para que as empresas vendam mais" foi o que ele afirmou, sem corar, na Feira de Construção Civil semana passada.
O que quer dizer tal barbaridade? É por ignorância ou por má-fé serviçal que alguém, invocando sua condição original de sindicalista, conclama os trabalhadores a se sacrificarem para que os patrões não se vejam prejudicados na manutenção da taxa de lucro obtida pela exploração da mais-valia desses trabalhadores?
Tenho certeza de que não é por ignorância. E isto já havia sido demonstrado quando, por ocasião do encontro com o patronato da Embraer, Lula aceitou pacificamente os argumentos da empresa que terminara de demitir mais de 4000 trabalhadores. Argumentos que não impediram, logo depois, à Justiça do Trabalho, impor suspensão à medida, com imediata reintegração dos demitidos.
E não por acaso, assim agiu a Justiça. A Embraer não demitia porque não poderia pagar. Pelo contrário. Embora perdendo encomendas no exterior, seu fluxo de produção continuava normal. O que ela executava era em função de prever queda de faturamento futuro por conta do desdobramento da crise nos ditos países desenvolvidos. Ou seja; na possibilidade de diminuição dos lucros a partir de 2010, a Embraer se dava ao luxo de demitir, desde já, 4000 hefes de família, sem nenhuma proposta intermediária – férias coletivas, plano de demissão voluntária – a ser apresentada aos que tiveram as cabeças cortadas. O engulho é duplo quando nos recordamos que boa parte dos projetos exitosos da Embraer foi produto de sua fase estatal.
Lula, com seu discurso, deu provas, mais uma vez: um auto-proclamado representante do mundo do trabalho pode ser mais eficiente na defesa dos interesses do grande capital do que um magistrado, com origem acadêmica universitária, e previsivelmente muito mais identificado com este segmento privilegiado.
Com a extraordinária competência perversa do seu espírito pragmático, gera movimentos transformistas extremamente ambíguos, como os que executa em sua política externa, instalando confusão ideológica até entre seus adversários. O exemplo mais recente está na participação na reunião dos ditos chefes de Estado “progressistas” , realizado em Viña Del Mar, numa preparação da reunião dos G-20. Ali, defendeu enfaticamente o Estado forte, regulamentador. Sem dúvida, Lula pratica um Estado atuante na economia, mas não no benefício dos mais necessitados de forma direta. Estado forte é o que põe em movimento com as isenções tributárias, subsídios e financiamentos a juros privilegiados que fornece ao grande capital. Quando obrigado a se posicionar na contrapartida social, a linguagem interna se modifica. Para além da “forma barata de tratar a pobreza”, com o Bolsa-Família, o Estado só faz se omitir nos conflitos sociais e trabalhistas. Os banqueiros e os predadores do agronegócio, aliás, há muito tempo já haviam constatado isso.
Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos

terça-feira, 31 de março de 2009

Inacabada, mas já vale uma leitura!

A Torre impressionava à distância
Lá do alto era possível ver a curva da terra
A mais privilegiada contemplação do mundo
Alimentada pelo uivo do vento ininterrupto

Nela alguns experimentavam a segura solidão
A capacidade de ausentar-se de tudo
E ao mesmo tempo manter-se presente
Encontravam a si – sentiam o auto-conhecimento

Enquanto outros reconheciam seu poder -
A possibilidade de avistar os rebanhos longínquos
De observar o céu com maior nitidez
De antever um ataque inimigo

Não havia vivente que ignorasse a existência da Torre
Que não quisera saborear o gosto de ser seu ocupante
Mesmo que fosse durante a passagem de uma tempestade
Era ela o máximo do sonho, a mais alta estrela

Tolo foi aquele que pensou e tentou monopolizá-la
Que lutou aos seus pés para ser o único a usufruí-la
Pois era preciso deixá-la para conseguir água, lenha e comida
E ninguém suportava descer e subi-la num único dia

Mesmo assim, a cobiça à Torre cegou muitos homens
Não percebiam o feitiço ideal que carregavam
Imaginavam-se Senhores da Torre, Donos do Saber
Mas não passavam de servos em nome de um ponto de vista

Mortes aconteceram, tragédias se sucederam
E as gerações se seguiram ao redor da bela construção
Aos seus pés nasceu a Cidade da Torre
E adoptaram o Homem da Torre - seu guardião

Este gozava de prestígio e poder
Era quem determinava quem e quando poderia subir ou não
Bania da Cidade aquele que lá errasse
Como também, aquele que não o agradasse

O Homem da Torre não era só satisfação
Sofria o desassossego de ser caçado
Aspiravam matá-lo, aspiravam possuir seu mando
Mais do que a vida noutro canto sem disputas

E foram nomeados os Protetores do Homem da Torre
E Leis foram criadas para punirem os assassinos
E Prisões foram erguidas e ampliadas
E foi decretada a Pena de Morte

A desumanidade estava, então, enraizada
Os homens temiam uns aos outros
Não mais existia a glória de admirar a terra e a si
Havia sim, a batalha pela soberania sobre os demais

Mas nada na terra dura além de certo tempo;
Foi após tremer o chão que a Torre desabou sobre a cidade
Levando a morte à grande parte da população
Espalhando o desespero, a incredulidade

Muitos criam ser um sinal dos Deuses
Outros acreditavam no acaso - na natureza
Fato é que aquele povo perdera sua maior referência
Inegavelmente, encontrava-se perdido nos escombros

E à medida que as coisas se reestruturavam
Que casas eram refeitas e pessoas eram curadas
O povo da cidade retornava à sua rotina atroz
Já que era suficientemente obtuso para viver de outra maneira

E muitos anos depois, no afã de encontrar uma pista
Que indicasse qual a origem da afamada Torre
Um jovem começou a escavar suas ruínas
A despeito das pragas lançadas contra ele pelos anciãos

Após cavar vários metros e alcançar o alicerce da obra
Tal jovem defrontou-se com a desgraça e a explicação
Pois estava talhado na superfície da rocha
Que manteve a Torre de pé ao longo dos séculos:

A Torre não servirá ao homem, a altura o cega e escraviza;
Servirá aos homens, para ensinar-lhes que nada na vida
É tão grande que não possa ser igualmente repartido,
Assim me foi passado por Ardag Tuynev.

quinta-feira, 26 de março de 2009


(Obs.: foto meramente ilustrativa, ou seja, não estou aqui dizendo que Ellen Gracie é comedora de bola)

Não se surpreenda Parte Autora ou Ré
Ao deparar-se na mesa de audiência
Com Juíza forrada de ouro e brilhantes
Espargidos por anéis, brincos, colar...

Faz parte do lobby dos Causídicos
Mimosear a Magistrada jactanciosa
A fim de sensibilizar sua imparcialidade
Quando estiver a elaborar a sentença

Concordemos ser estatalmente incomum
Haver serventuário possuidor do caráter
Necessário para rejeitar uma bola de ouro

E não esqueça que no Poder Judiciário
Estão a fervilhar todos os interesses
Correntes nesta sociedade de consumo

quarta-feira, 25 de março de 2009


Retrato de Rosa Luxemburgo, morta em 1919 por paramilitares alemâes. Bertolt Brecht escreveu seu epitáfio:

"Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polônia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem dos opressores.
Oprimidos,
enterrai vossas desavenças!"

.

XXX

.

Epitáfio de Tereza:

Tereza nasceu lésbica,
Nunca desejou experimentar um homem,
Tamanha era sua adoração pelas mulheres.

Colecionava num diário
O que lhe chamava a atenção em cada xoxota que amava,
Do corte às formas,
Do odor à profundidade;
Faltava erguer um templo,
E foi além.

Decidiu convencer cada homem homossexual que encontrasse
Das maravilhas da vagina,
Através da sua.

Para tanto,
Vendava-os,
Punha um filme pornô no qual homens gemiam
E pedia ao sujeito que saboreasse as sensações:
A temperatura,
A textura,
As vibrações,
A maciez,
A lubrificação natural.

Tereza trepou com homens por muito tempo,
Tendo angariado alguns ex-viados na sua jornada.

Satisfeita, não deixou de louvar a vagina nem por um segundo;
Enquanto fudia,
Pensava em Rosa Luxemburgo.

terça-feira, 24 de março de 2009

Estou doente;
Quem não está?!

Não esperarei a cura,
Morrerei em breve, antes que esteja absolutamente só,
Desiludido,
Amamentando a esperança da continuidade da vida!

Prefiro sentir-me vivo ao morrer,
Repleto de fomes, de dúvidas, de compaixão;
Em busca da personalidade, do adstringente amor,
Do conhecimento que desconheço.

Que me seja negada a morte por velhice,
Caduca, esquecida, entrevada,
Rodeada de crianças zombeteiras
E favores de filhos ingratos.

Desejo morrer agora,
Por sobre estes versos tristes de morrer!

segunda-feira, 23 de março de 2009

FOLHA DE SÃO PAULO, 14-03-2009, INCOERÊNCIA RELIGIOSA

Dráuzio Varela
Os males que a igreja causa em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicosAOS COLEGAS de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.

Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos..Não se deixem abater, é precisoentender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vidadepois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: "Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porquevosso será o reino dos céus", não é oque pregam?
É uma cosmovisão antagônica àda medicina. Nenhum de nós dariatal conselho em lugar de analgésicospara alguém com cólica renal. Nossocompromisso profissional é com avida terrena, o deles, com a eterna.Enquanto nossos pacientes cobramresultados concretos, os fiéis que osseguem precisam antes morrer parater o direito de fazê-lo..Podemos acusar a Igreja Católicade inúmeros equívocos e de crimescontra a humanidade, jamais deincoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudesincompatíveis com os princípiosque a regem desde os tempos da Inquisição.
Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma seinstalaria no instante em que o espermatozoide se esgueira entre osporos da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que umprelado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez,ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?.O arcebispo de Olinda e Recife nãocometeu nenhum disparate, agiuem obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.
Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diantedos abusos sexuais contra meninos,perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Alémda transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contraos atos criminosos desses padresque nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?.
Não há o que reclamar. A políticado Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.Em nota à imprensa a respeito doepisódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticanopara a Família: "A igreja não podenunca trair sua posição, que é a dedefender a vida, da concepção atéseu término natural, mesmo diantede um drama humano tão forte,como o da violência contra umamenina". Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida daconcepção até a morte?
Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeiasestão lotadas de bandidos cruéis e deassassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa dainstituição à qual o senhor pertence..Os católicos precisam ver a igrejacomo ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais,dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios daspessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituiçãoum dia adote posturas condizentescom os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela..Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muitoalém da excomunhão de médicos,medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo estáem sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, pormeio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.
Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniõescautelosas apenas o presidente daRepública e o ministro da Saúde.Os políticos não ousam afrontar aigreja. O poder dos religiosos não éconsequência do conforto espiritualoferecido a seus rebanhos nem defilosofias transcendentais sobreos desígnios do céu e da terra, elederiva da coação exercida sobre ospolíticos.
Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisascom células-tronco ou o divórcio,não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritáriaque é, mobiliza sua força políticadesproporcional para impor proibições a todos nós.[i]
http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ ilustrad/ fq1403200923. htm

quarta-feira, 18 de março de 2009

Crônica da morte consumada

“A poética da morte é a da igualdade dos mortos. Nenhuma divergência quanto a nacionalidade, sexo, idade ou crença. Os mortos são absolutamente iguais como deveriam ser os vivos se a vida não os envaidecesse tanto, fazendo da distinção o valor maior...”

Gey Espinheira(para Arnaldo Xavier)

Dedicamos um dia à morte, não à morte de todos os dias que o profissionalismo das funerárias e dos coveiros enfrenta, dos mortos avulsos e uns tantos anônimos, mas à morte de todos, universal.
O lugar da morte é o cemitério. Em um mesmo cemitério persiste a hierarquia dos mortos quando em vida. Os mortos jamais são iguais, ainda que ao pó retornados, são o que foram em vida na expressão de suas representações na arquitetura de seus túmulos. Mas há os cemitérios para os diferentes, ou seja, cemitérios de ricos e cemitérios de pobres; mas para além dessa diferenciação, em um mesmo cemitério, como em uma cidade, há lugares centrais e periféricos.
No tempo em que se morria - e aqui quero dizer a morte trágica - desenganado pelos médicos, ou de modo abrupto por ataque cardíaco, morrer do coração, como se dizia; ou ainda de acidente, a morte tinha um significado especial. Era morte esperada ou surpreendente a desorganizar a família, os amigos, os vizinhos, enfim, a casa inteira, uma rua ou mesmo uma cidade. Morte sentida, inconsolável, “esconsolável consolatrix consoadíssima...”.
Hoje, a morte é clínica. A tecnologia vai às últimas conseqüências, invade pelos orifícios do corpo com sondas, tubos; perfura o corpo e o invade e máquinas, superórgãos, mantêm a vitalidade enquanto se espera que o corpo doente ou agredido se recupere. No caso, a morte é clínica. O organismo não respondeu, não suportou. O corpo, também máquina sujeita a reparações, e eis que a mecânica já não dá conta da vida. Morte sentida, sim, mas morte racional, burocrática, explicada nos mínimos detalhes. Morte sem mistério.
O ataque do coração é agora o enfarto. O enfarto não tem a mesma dramaticidade do ataque, do arrebentar do coração vítima de um ataque, do acometimento de um mal súbito. Súbito, abrupto! Ser atacado! Sofrer um ataque! E eis que, indefeso e desavisado, sobreveio o ataque do coração. Quão diferente de saber que teve um enfarto, um enfarte. Há mais dignidade quando se morre de um ataque do coração do que de um enfarto.
A medicina banalizou a morte e a fez calculável, previsível, de tal modo que quem morre é responsável por sua própria morte e deve ser recriminado por isso. Não se cuidou! Não ia ao médico! Etc. As mortes surpresa, as mortes homeopáticas de doenças incuráveis... A “dama branca”: “Por uma noite de muito frio/ A Dama Branca levou meu pai” (2). Como eram heróicas as mortes de antigamente! Morria-se em casa, na própria cama, como em um verso de Lorca. A morte era um ritual da vida e não um exercício médico. “Tudo é milagre/ Tudo, menos a morte. / Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”. Mas não é da morte que queremos falar, mas do lugar dos mortos, os cemitérios.
RICOS E POBRES - Clarival do Prado Valladares é quem nos guia pelos cemitérios de Salvador: Campo Santo, construído em 1841, onde se encontram túmulos de pessoas ilustres e esculturas de renomados artistas, mas destaco o comentário de Clarival: “Todavia, para além dessas quadras e dos grandes muros de carneiros, começam as quadras de enterro de pobre cercado de pitangueiras e descendo a encosta até a grota e o bambuzal.
Nessas, o Campo Santo assume um espírito diverso, comparável às ribanceiras das Quintas (Cemitério das Quintas dos Lázaros), onde as cruzes das covas rasas parecem roçado de mandioca”.
Os cemitérios são erguidos em elevações, talvez a busca dos céus, metáfora topográfica da fuga do abismo. “A antiga Quinta dos Lázaros, propriedade dos primeiros jesuítas, tinha um altiplano de morro, suficiente e muito adequado para se fazer uma verdadeira necrópole, nos conceitos sanitaristas da época” (ibid. p.115). Na semeadura do Cemitério dos Humildes de São Francisco está a de Aninha, “a grande ialorixá do candomblé do Retiro de São Gonçalo, o Axé do Opô-Afonjá”, e continua Clarival, referindo-se ao túmulo: “na quadra da Irmandade de São Benedito, próxima às dos ciganos longevos e de frades franciscanos de nome alemão, com inscrição sofisticada que em nada permite identificá-la em sua notável personalidade religiosa”:
“Aqui descança/ Eugênia Anna Santos/ A 13-7-1869/ A 3-1-1938/ Amastes desmedidamente aos teus/ E as saudades que/ Deixaste não terão mais fim./ Uma prece.”
A poética da morte é a da igualdade dos mortos. Nenhuma divergência quanto à nacionalidade, sexo, idade ou crença. Os mortos são absolutamente iguais como deveriam ser os vivos se a vida não os envaidecesse tanto, fazendo da distinção o valor maior; mas esta é uma outra história...
Clarival vai mais além: “A importância social das profissões artesanais se demonstra no espírito de classe que fez erigir nos cemitérios da Quinta dos Lázaros imponentes mausoléus coletivos, por exemplo: o da Sociedade Montepio dos Artífices, da Sociedade Bolsa de Caridade, da Associação Tipográfica, do Montepio dos Artistas, e muitos outros, ao jeito e aparência de velhos sobrados, uniformes e serenos, de platibanda ou de beiral, alguns avarandados, outros com jardim de frente gradeado, guardando seus carneiros como janelas fechadas das casas antigas de Salvador”.
Mas vamos mais adiante neste passeio pelas ruas, avenidas e quadras das cidades dos mortos. Vamos, com Clarival, pelos cemitérios de pobres: “o cemitério de pobre continua paisagem. Paisagem de leiras marcadas de cruzes, pintadas e inscritas...” (ibid. p. 130), algumas, como nos lembra João Cabral de Melo Neto: “... as caídas cruzes que há/ são menos cruzes que mastros/ quando a meio naufragar”.
Clarival nos ensina a diferença entre cemitério de rico e cemitério de pobre: “Cemitério de pobre não tem inscrições complicadas, brazões melancólicos, jactância catedralesca. Tem legendas sem gramática, com grafia de S ao contrário, com H onde não deve e sem H onde devia”. (Ibit. P. 131).
“Maria Jaz/ De Antonio Esposa/ Benedito Anjo/ Sem Hacordar/ Severo Muitos Filhos/ Lhe Tomam a Benção/ Pureza Mãe/ De Irene Uma Flor”
Licença poética na morte e para a morte, o sentimento humano puro e simples, como na saudade infinita do poema que lembra a menina morta:
“Rosalva Rosendo dos Santos/ De Rosendo e Rosa dos Santos/ Nascida em Salvador/ De Todos os Santos”.
Infelizes os mortos sem sepultura, invisíveis e silenciosos. Os que têm pátria, semeados em lugar conhecido e seguro, estão sempre a espera e sempre nos dizem coisas quando estamos com vontade de morrer.

terça-feira, 17 de março de 2009


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Após ler mancheia de bons poemas
Escrita por ainda menor soma de vates
Pude sorver o substrato dest`arte

À um grande colega, cara de ator de Hollywood,

Amigo: Xis

Não posso deixar que a vida me limite ao medo.
Eu sou o limite de mim mesmo,
o oco, o avesso preenchido.

Sou o tudo e o nada.
Tudo que a mim desejo.
Sou aquilo que sonho
Sou hoje o que fiz ontem.

Xixi no ralo - Carnaval 2009/RJ

segunda-feira, 16 de março de 2009

Poetiza Maria de Queiroz

Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.
Não estou aqui pra que gostem de mim.
Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.
E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.
Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que eu sou

, então direi nestes termos:

A jovem denota estar distraída
Ao deitar-se de bruços apreciando as pancadas do mar.

No entanto, o mar é somente o fundo do seu verdadeiro pensamento,
Ela espia meu contorcionismo
A fim de percebê-la mais intimamente
E faz-se perceber amplamente
Afastando aos milímetros seus joelhos forrados de areia.

Alheada,
Apetece-a o desejo de manter-me escravo -
Apanhado e apanhando apenas para olhá-la,
Apetecê-la,
Tipo eunuco abanando a ama saída do banho.

No entanto, estou ali por livre encanto e pleno deleite,
Vendo o vento arrepiar-lhe os miúdos cabelos,
Refrescando suas partes, temperando-a!
Vendo o caminhar das nuvens sobre suas costas,
Ambicionando suas formas, aventurando adentrar-lhe o epicentro.

É como se estivesse nua
Atrás duma parede de vidro,
Num pôster, num desfile,
Ou em qualquer outra situação na qual entendemos a magistral função dos olhos.

Seria como se estivesse algemado na cama
E ela executando uma massagem tailandesa,
Estapeando-me, cobrando que a olhasse nos olhos.

Nestes termos,
A jovem é malvada,
Desumana, mesquinha!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sessão puta-q-pariu

Álvaro de Campos

"Tabacaria"

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. 0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

segunda-feira, 9 de março de 2009




sexta-feira, 6 de março de 2009



Amo também com os olhos
Sem, contudo, abdicar do coração
São eles as portas de minh’alma
Quem principia o compor da paixão

E como Cupido mais que arqueiro
Miraram-se obcecados sobre você
Para tê-la irradiada dentro do peito
Iluminando-me com seu incandescer

Meu querer é então capricho das íris
E sua beleza a pedra luminescente
Ofuscadora de quaisquer outras beldades

Posso ver o meu amar só em te olhar
Seja concentrada no correr da aula
Seja amando-me deitada na eternidade