quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
DESABAFO
Tal resolução estabelece diretrizes para a realização das Atividades Complementares nos Cursos de Licenciatura e Bacharelado da Universidade Católica do Salvador, onde, de maneira unilateral, arbitrária e aristocrática, impuseram condições para a realização das atividades complementares, bem como, o computo das cargas horárias, condições estas que podemos classificar como, no mínimo, ESDRÚXULAS E ABUSIVAS.
Ocorre que, é exigida dos alunos de Bacharelado e Licenciatura a participação em Atividades Complementares, totalizando 210 horas, para integração curricular e conseqüente formação acadêmica.
Destarte, após o supra referido Ato, o Reitor decidiu excluir das Atividades Complementares o Estágio Não Obrigatório; o Trabalho Efetivo Discente – TED e a participação em congressos e seminários não promovidos pela Universidade, atividades estas que geravam o maior acumulo de horas para integração curricular da maioria absoluta do alunado.
Assim, apenas serão consideradas como Atividades Complementares para integração curricular: as atividades acadêmicas realizadas pelos alunos através de MATRÍCULA ($$$$$) em disciplinas de outro curso; em disciplinas do seu curso ($$$$$) (desde que tenham sido excluídas dos projetos pedagógicos por força de reforma curriculares); em disciplinas do novo currículo do seu curso de graduação ($$$$$) (desde que não integrem os currículos aos quais os estudantes estejam vinculados); a participação em congressos, seminários, conferências, semanas de mobilização científica, encontros de avaliação e planejamento pedagógico, mini-cursos, dentre outras atividades promovidas pela própria Universidade ($$$$$); atividades de monitoria e iniciação científica (desde que realizadas de forma VOLUNTÁRIA) e atividades acadêmicas realizadas com aproveitamento pelos alunos, exclusivamente em cursos de graduação autorizados e reconhecidos pelo Ministério da Educação (desde que estejam registradas nos históricos escolares como Atividades Complementares).
Então, pelo que entendi, se um aluno do curso de Direito pegar uma matéria do curso de Música, esta matéria será considerada uma Atividade Complementar e os estágios desenvolvidos por aquele aluno, em órgãos do Poder Judiciário, escritórios de advocacia, dentre outros, não serão considerados Atividades Complementares??? Em qual parte dessa piada podemos rir???
Pasmem Nobres Colegas. Isso é um ABSURDO. É nítido que esta é mais uma estratégia da Direção desta Instituição para arrecadar mais dinheiro, obrigando os alunos a cursarem matérias não obrigatórias, integrando-as ao currículo como Atividades Complementares, já que, pelo que me recordo, a única Atividade Complementar desenvolvida por iniciativa da UCSal é o SEMOC, pois, a grande maioria dos seminários, congressos, conferências e etc, são de iniciativa dos alunos formandos (para arrecadar verbas para a formatura) ou de outras instituições.
Tais alterações serão válidas para todos alunos a partir de março/2011, excluindo apenas os formandos de 2011.1, sendo que os outros, em atenção especial aos formandos de 2011.2, que acredito serem os mais prejudicados, deverão se virar em 210 horas de Atividades Complementares numa Instituição que malmente consegue cumprir com o cronograma acadêmico.
Hoje, ao receber e-mails de colegas sobre tal assunto, fui acometido por um sentimento de indignação, e mesmo apesar do cansaço por ter vivenciado inúmeras barbáries desta Instituição ao longo desses 5 anos e que hoje encontram-se apagadas da memória de muitos, reúno forças, mais uma vez, para enfrentar esses inescrupulosos, gananciosos e usurpadores membros da direção da Universidade Católica do Salvador – UCSal.
Aproveito a oportunidade e peço aos Nobres Colegas para que não abaixem as cabeças e aceitem tais imposições, pois nós que construímos essa Instituição, se ela hoje ainda tem algum respaldo, este é mérito nosso, pois mesmo com tantas adversidades fomos capazes de progredir, alcançando respeito perante a sociedade.
Onde estão os líderes dos D.A´s???
Quanto aos Exmo. Membros da Direção da Ucsal, já não bastam todos os desvios de dinheiro? Todas as sonegações de Impostos? Onde estão os R$ 36 milhões desviados dos cofres da UCSal? E as propinas pagas para anularem o débito com a Previdência Social? Sem falar nas falcatruas nas eleições para Reitoria...
TENHO NOJO DE VOCÊS!!
Para os interessados, seguem links para maiores esclarecimentos:
http://www.fenafisp.org/app/modules/news/print.php?storyid=807
https://www.ucsal.br/download/atos_editais/ato_0539_10.pdf
http://www.jornalgrandebahia.com.br/materia/1603/audiencia-publica-discute-crise-da-ucsal-mpf-convoca-reitor
Sem mais para o momento,
Att,
Lucas Santana Santos
Estudante de Direito da UCSal - 11º semestre.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

declama, declama
ela clama
e reclama
ela quer mandar
andar sobre águas confusas
dar ordens no quartel da estupidez
licença não funcionaria
respeito só há em público
funcionária pública não trabalha na licença
esclamo, esclamo
clamo a minha dor ignorante
que devaste o mundo e lance um tom laranja na noite
eu rio da catástrofe
ela me cela no seu beijo
e a catástrofe do beijo sela o rio que me separa dela

nesta tarde fria de inverno norte
cheia de ventos bandidos
de neve seca
de esquilos trêmulos
e sem pássaros
não me bastou o calor do casaco
do bolso úmido
do cachecol felino
tampouco o carinho da flor eterna
de queixo encaixado em meu ombro
irresponsavelmente apaixonada
em meio a estas pessoas coloridas/pintadas
tão diversas quanto as posições sexuais
e quase sempre caladas
e quase sempre apressadas
e pressionadas pelo tempo dividido
cegas de mim e em mim aprisionadas
recorro a um momento
precisamente
renasço na preta da cozinha
calada, apressada, pressionada, dividida
mas que mirava no fundo da panela quente
como no seio virgem
o sorriso do menino faminto e molhado pelo banho
sinto o fogo por debaixo da frigideira
o calor escapando pela beirada das tampas equilibradas
e aquela dedicação de mãe de cria
cuja mão descansada nos quadris
e olhos permissivos embassados pelo tempo
simbolizavam a hora do almoço
e me faziam encher a boca d'água
meu interior se aquece, ensolara
se faz importante e abafa as grifes, a gripe, a crise
e me refogo no cuidado e força boa da vida
numa memória pequena
superior ao i'm sorry de qualquer chinês
sábado, 1 de janeiro de 2011
quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quanto custa este livro?
Está sujo
Se desfazendo
Cheio de riscos, rabiscos
Até uma declaração de amor...
Mas não pode custar tanto?!
As letras vão sumindo
A Capa não diz nada
Arrancaram-lhe o prelúdio...
Por que eu o quero?!
Sinceramente?!
Em nome da nossa amizade?!
Porque seu maltrato é sinal de beleza
Queria eu envelhecer como ele
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
(Hilda Hilst)
segunda-feira, 26 de julho de 2010
boca-pio
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
Intérprete das intempéries
Rosa do reisado
Borboleta cujo bater das asas destrambelha as tensões
Mãe das cartas cuja sorte faz do homem um rei
Ave de canto de vôo de plumagem
Arquétipo da fêmea
da orquídea
da manhã
amora... aroma... aurora
despertar e delirar dum querer espontâneo
que intriga os sentimentos brandos
e subverte os restantes
admirar e conceber dos encantos da mulher
sem caprichos ou falsas construções
com divino charme e esplêndida mina
desventura, desenlace, desiderato
união de
olhos vastos e calmos
boca aberta e precipitada
cheiro doce e seco
corpo e cólera
ventos e fala
tu,
a desconhecida perceptível demais
por demais conquistadora
incrivelmente incandescente
indecente, indelével, indecifrável
de irrealizável olvidar
de implexo descrever
de inesgotável sonhar
e o que mais?
já não pretendo imaginar!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O OSTRACISMO DE WILSON SIMONAL

quinta-feira, 7 de maio de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Os traidores de classe
Sáb, 28 de março de 2009 12:15
Entre os vários episódios pitorescos que marcam a Revolução de Outubro, na Russia de 17, um merece ser recuperado. Trata-se de um fato marcante, ocorrido com Alexandra Kolontai, e que resultou em filme de sucesso na União Soviética, lá pelos anos 70 do século passado.
terça-feira, 31 de março de 2009
Inacabada, mas já vale uma leitura!
Lá do alto era possível ver a curva da terra
A mais privilegiada contemplação do mundo
Alimentada pelo uivo do vento ininterrupto
Nela alguns experimentavam a segura solidão
A capacidade de ausentar-se de tudo
E ao mesmo tempo manter-se presente
Encontravam a si – sentiam o auto-conhecimento
Enquanto outros reconheciam seu poder -
A possibilidade de avistar os rebanhos longínquos
De observar o céu com maior nitidez
De antever um ataque inimigo
Não havia vivente que ignorasse a existência da Torre
Que não quisera saborear o gosto de ser seu ocupante
Mesmo que fosse durante a passagem de uma tempestade
Era ela o máximo do sonho, a mais alta estrela
Tolo foi aquele que pensou e tentou monopolizá-la
Que lutou aos seus pés para ser o único a usufruí-la
Pois era preciso deixá-la para conseguir água, lenha e comida
E ninguém suportava descer e subi-la num único dia
Mesmo assim, a cobiça à Torre cegou muitos homens
Não percebiam o feitiço ideal que carregavam
Imaginavam-se Senhores da Torre, Donos do Saber
Mas não passavam de servos em nome de um ponto de vista
Mortes aconteceram, tragédias se sucederam
E as gerações se seguiram ao redor da bela construção
Aos seus pés nasceu a Cidade da Torre
E adoptaram o Homem da Torre - seu guardião
Este gozava de prestígio e poder
Era quem determinava quem e quando poderia subir ou não
Bania da Cidade aquele que lá errasse
Como também, aquele que não o agradasse
O Homem da Torre não era só satisfação
Sofria o desassossego de ser caçado
Aspiravam matá-lo, aspiravam possuir seu mando
Mais do que a vida noutro canto sem disputas
E foram nomeados os Protetores do Homem da Torre
E Leis foram criadas para punirem os assassinos
E Prisões foram erguidas e ampliadas
E foi decretada a Pena de Morte
A desumanidade estava, então, enraizada
Os homens temiam uns aos outros
Não mais existia a glória de admirar a terra e a si
Havia sim, a batalha pela soberania sobre os demais
Mas nada na terra dura além de certo tempo;
Foi após tremer o chão que a Torre desabou sobre a cidade
Levando a morte à grande parte da população
Espalhando o desespero, a incredulidade
Muitos criam ser um sinal dos Deuses
Outros acreditavam no acaso - na natureza
Fato é que aquele povo perdera sua maior referência
Inegavelmente, encontrava-se perdido nos escombros
E à medida que as coisas se reestruturavam
Que casas eram refeitas e pessoas eram curadas
O povo da cidade retornava à sua rotina atroz
Já que era suficientemente obtuso para viver de outra maneira
E muitos anos depois, no afã de encontrar uma pista
Que indicasse qual a origem da afamada Torre
Um jovem começou a escavar suas ruínas
A despeito das pragas lançadas contra ele pelos anciãos
Após cavar vários metros e alcançar o alicerce da obra
Tal jovem defrontou-se com a desgraça e a explicação
Pois estava talhado na superfície da rocha
Que manteve a Torre de pé ao longo dos séculos:
A Torre não servirá ao homem, a altura o cega e escraviza;
Servirá aos homens, para ensinar-lhes que nada na vida
É tão grande que não possa ser igualmente repartido,
Assim me foi passado por Ardag Tuynev.
quinta-feira, 26 de março de 2009

(Obs.: foto meramente ilustrativa, ou seja, não estou aqui dizendo que Ellen Gracie é comedora de bola)
Não se surpreenda Parte Autora ou Ré
Ao deparar-se na mesa de audiência
Com Juíza forrada de ouro e brilhantes
Espargidos por anéis, brincos, colar...
Faz parte do lobby dos Causídicos
Mimosear a Magistrada jactanciosa
A fim de sensibilizar sua imparcialidade
Quando estiver a elaborar a sentença
Concordemos ser estatalmente incomum
Haver serventuário possuidor do caráter
Necessário para rejeitar uma bola de ouro
E não esqueça que no Poder Judiciário
Estão a fervilhar todos os interesses
Correntes nesta sociedade de consumo
quarta-feira, 25 de março de 2009

Retrato de Rosa Luxemburgo, morta em 1919 por paramilitares alemâes. Bertolt Brecht escreveu seu epitáfio:
"Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polônia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem dos opressores.
Oprimidos,
enterrai vossas desavenças!"
.
XXX
.
Epitáfio de Tereza:
Tereza nasceu lésbica,
Nunca desejou experimentar um homem,
Tamanha era sua adoração pelas mulheres.
Colecionava num diário
O que lhe chamava a atenção em cada xoxota que amava,
Do corte às formas,
Do odor à profundidade;
Faltava erguer um templo,
E foi além.
Decidiu convencer cada homem homossexual que encontrasse
Das maravilhas da vagina,
Através da sua.
Para tanto,
Vendava-os,
Punha um filme pornô no qual homens gemiam
E pedia ao sujeito que saboreasse as sensações:
A temperatura,
A textura,
As vibrações,
A maciez,
A lubrificação natural.
Tereza trepou com homens por muito tempo,
Tendo angariado alguns ex-viados na sua jornada.
Satisfeita, não deixou de louvar a vagina nem por um segundo;
Enquanto fudia,
Pensava em Rosa Luxemburgo.
terça-feira, 24 de março de 2009
Quem não está?!
Não esperarei a cura,
Morrerei em breve, antes que esteja absolutamente só,
Desiludido,
Amamentando a esperança da continuidade da vida!
Prefiro sentir-me vivo ao morrer,
Repleto de fomes, de dúvidas, de compaixão;
Em busca da personalidade, do adstringente amor,
Do conhecimento que desconheço.
Que me seja negada a morte por velhice,
Caduca, esquecida, entrevada,
Rodeada de crianças zombeteiras
E favores de filhos ingratos.
Desejo morrer agora,
Por sobre estes versos tristes de morrer!
segunda-feira, 23 de março de 2009
FOLHA DE SÃO PAULO, 14-03-2009, INCOERÊNCIA RELIGIOSA
Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos..Não se deixem abater, é precisoentender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vidadepois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: "Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porquevosso será o reino dos céus", não é oque pregam?
http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ ilustrad/ fq1403200923. htm
quarta-feira, 18 de março de 2009
Crônica da morte consumada
Gey Espinheira(para Arnaldo Xavier)
terça-feira, 17 de março de 2009
À um grande colega, cara de ator de Hollywood,
Não posso deixar que a vida me limite ao medo.
Eu sou o limite de mim mesmo,
o oco, o avesso preenchido.
Sou o tudo e o nada.
Tudo que a mim desejo.
Sou aquilo que sonho
Sou hoje o que fiz ontem.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Poetiza Maria de Queiroz
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.
Não estou aqui pra que gostem de mim.
Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.
E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.
Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que eu sou

A jovem denota estar distraída
Ao deitar-se de bruços apreciando as pancadas do mar.
No entanto, o mar é somente o fundo do seu verdadeiro pensamento,
Ela espia meu contorcionismo
A fim de percebê-la mais intimamente
E faz-se perceber amplamente
Afastando aos milímetros seus joelhos forrados de areia.
Alheada,
Apetece-a o desejo de manter-me escravo -
Apanhado e apanhando apenas para olhá-la,
Apetecê-la,
Tipo eunuco abanando a ama saída do banho.
No entanto, estou ali por livre encanto e pleno deleite,
Vendo o vento arrepiar-lhe os miúdos cabelos,
Refrescando suas partes, temperando-a!
Vendo o caminhar das nuvens sobre suas costas,
Ambicionando suas formas, aventurando adentrar-lhe o epicentro.
É como se estivesse nua
Atrás duma parede de vidro,
Num pôster, num desfile,
Ou em qualquer outra situação na qual entendemos a magistral função dos olhos.
Seria como se estivesse algemado na cama
E ela executando uma massagem tailandesa,
Estapeando-me, cobrando que a olhasse nos olhos.
Nestes termos,
A jovem é malvada,
Desumana, mesquinha!
quarta-feira, 11 de março de 2009
Sessão puta-q-pariu
"Tabacaria"
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. 0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
segunda-feira, 9 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009

Sem, contudo, abdicar do coração
São eles as portas de minh’alma
Quem principia o compor da paixão
E como Cupido mais que arqueiro
Miraram-se obcecados sobre você
Para tê-la irradiada dentro do peito
Iluminando-me com seu incandescer
Meu querer é então capricho das íris
E sua beleza a pedra luminescente
Ofuscadora de quaisquer outras beldades
Posso ver o meu amar só em te olhar
Seja concentrada no correr da aula
Seja amando-me deitada na eternidade
quarta-feira, 4 de março de 2009
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Caçador de mim
Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Atrasa
Tua queda para além do meu nariz
Escorre - doce calma
Segue teu caminho por sobre a cicatriz
Atrasa gota d’água
E na descida contorna meu sorriso
Atrasa
Chegue ao canto
Encontre a alma
Penetre o labirinto
Atrasa minha gota d’água
Às gotas me eterniza
Mostra-me o ser nuvem
Afunda-me n’água - flor de gaia
E o mais nada e o mais nada e o mais nada e o mais nada






